07 Fevereiro 2009

dois casamentos, um funeral

tem dias que o destino finalmente chega
e não chega sozinho

todos os destinos chegaram hoje
ao mesmo tempo

01 Novembro 2008

O gosto da sexta
pode ser delicioso
quando um amigo distante
após anos declara
- que linda que você é

O gosto da sexta
pode ser inebriante
um êxtase constante
- isso é muito gostoso
- isso é uma mulher.

28 Outubro 2008

Adoráveis encontros de cada dia

Eu tenho as pessoas do caminho. Gente que encontro todo dia, na ida ao trabalho, a íngreme lomba da Ramiro. O senhor do cachorro-quente do pensionato, sempre tão sorridente. A senhora que entrega propaganda de restaurante na esquina. O segurança da galeria da Independência. Me sinto contente de rever as pessoas, todo dia. Um contentamento tímido, porém, que tem ímpetos de dizer "bom dia, como passou a noite?", mas não tem coragem.

Não tinha. A magia da primavera, das flores lilases que transformam em um imenso jardim o chão da nossa rua diária, chegou também nos nossos corações. E gentilmente ontem o vendedor de cachorro-quente me olhou nos olhos, e desejou: "boa noite e bom descanso!".

Na volta para casa de hoje, vi o moço de dread se aproximando. Fiquei olhando para ele, um de meus personagens diários, com um feliz sorriso de passagem. Ele sorriu de volta. E quando já estava de costas para mim, gritou "é sempre uma satisfação te encontrar".

13 Outubro 2008

Tempo de exceção

A sintonia é outra, estou em outro tempo. Um tempo em que a casa fica embaixo da arquibancada, moramos no gimnásio, eu, meus três colegas, e nosso espírito disposto. Os olhos brilham diante da atividade jornalística, da aventura em terras desconhecidas, das lagoas e cascatas, das ervas, da vida em grupo. A reunião de pauta é na hora da refeição, em confraternização com os quilombolas, ou no topo do morro, com Deus, Nossa Senhora do Rosário, o rei, a rainha, todos os santos. Em Osório, as divindades tocam nossa face, nos guiam pela madrugada. Gostaria de ter uma pequena parte desta fé que reúne, que move. O maçambique é lindo, suas pessoas são extraordinárias. E agora de volta à vida que não transcende, que anda pelo centro e não tem tempo para o almoço, eu sinto que o tempo do maçambique persiste. O tempo da vontade, o tempo do desejo. Um tempo de exceção.

26 Setembro 2008

Para não esquecer...

Stamattina, mi sono alzato, oh, bela ciao, bela ciao, bela ciao, ciao, ciao! Assim cantávamos jovens e rebeldes, pelas ruas de Münster. Ele usava chapéu. Eu estva com o cachecol vermelho novo. Giramos longas noites, em busca das festas dos alemões bonaxões. Ele fazia força para me arrastar, afinal ele não era batata, como quase todos os outros, mas miúdo. Um alemão miúdos mais magro que eu. Minha tarefa era corrigir seus erros de italiano. E equilibrar a garrafa de vinho. Ilegalmente, de garupa, na Alemanha, cantando bela ciao, ciao, ciao!

um real

Dessa vez aconteceu com uma pedinte. Ela parou ao meu lado, enquanto eu esperava o homezinho verde me autorizar a atravessar a rua. Me explicou porque precisava de dinheiro. Eu ouvi. Ela recolhia latinhas, e naquele dia não havia juntado muito. Eu botei a mão no bolso, haviam duas moedas. Uma de 10 centavos, outra de um real. Deixei a de dez. E atravessei correndo pois o sinal estava fechando. Ela ficou puta. Me xingou, vê se tem cabimento, dizia ela, 10 centavos!! E aí eu me pergunto, quem foi a mais errada da história? Ela, pela absurda falta de gratidão, ou eu, por dar dinheiro na rua, ou por ser mesquinha a ponto de não ter dado meu um real?

Um prêmio para mim

Essa semana eu ganhei o prêmio situação ridícula do ano, quando consegui sentar na mesa exatamente ao lado da mesa do ex, acompanhado pela atual. O detalhe é que não o via há mais de um ano, e foi assim que as providências decidiram nos pechar ou pexar novamente. Me fazendo escolher a mesa mais errada do mundo. Mas enfim, sobrevivemos todos. E não doeu tanto assim.

A comida do Ocidente continua boa como sempre, mesmo sem o cozinheiro que abriu seu próprio e maravilhoso restaurante na Santo Antônio. Agora, o que eu gosto mesmo é o Flor de Maçã, na Independência, a nova rua-chave da minha vida, onde a as pessoas sorriem e são calmas, e a comida não tem nada em exagero, nem sal, nem óleo. Nem o ar da noite. Que o Ocidente não perde, mesmo colocando novas toalhas brancas e abrindo as janelas para arejar, o Ocidente será para sempre lugar de pegação na madrugada. O próprio site conta: "O equilíbrio (relativo ao Tao) foi encontrado com a abertura do restaurante". Ha. Se comida vegetariana desse equilíbrio, eu seria uma pessoa mais centrada.

Porque essa semana eu perdi meu pen drive, perdi um arquivo no trabalho, perdi tempo refazendo o arquivo perdido, quase perdi um dedo por aliar estilete e distração, perdi a higiene, já que em casa bolas de poeira voam sem timidez, e os absorventes acabaram antes do período terminar, perdi a credibilidade, quando mantive discussões mesmo estando errada por pura falta de atenção, e enfim, só não perdi a oportunidade de sentar na mesa errada.

E aí no final da semana alguém chega e te faz uma pergunta pessoal e eu penso comigo mesma: o que faço comigo mesma?